Prêmio Abril de Jornalismo

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Curiosidades

Trinta anos esta noite

Por Carlos Maranhão *

Anos e anos antes de se tornar um dos mais bem-sucedidos autores de novela da televisão brasileira, Aguinaldo Silva era um repórter policial que fazia frilas para reforçar o orçamento. Fernando Morais, futuro autor de Olga, Chatô e Na Toca dos Leões, desde sempre barbudo e fumante de charuto, trabalhava como editor-assistente de Veja. O cargo nem existe mais. Costanza Pascolato, que viraria guru da moda brasileira, aparecia como consultora no expediente de uma bela revista chamada Claudia Moda. Luis Fernando Verissimo mal começava a ser Luis Fernando Verissimo. Os gêmeos Chico e Paulo Caruso iniciavam suas carreiras. Outros já haviam se tornado lendas vivas: o grande colunista político Carlos Castello Branco, os artistas plásticos Rubens Gerchman e Wesley Duke Lee, o desenhista Henfil, o publicitário José Zaragoza, o economista Mário Henrique Simonsen... A lista poderia continuar pelos próximos parágrafos, mas vamos parar por aqui.

Todos eles – e muitos, muitos mais – ganharam árvores do Prêmio Abril de Jornalismo. Nestes trinta anos, foram laureados 935 trabalhos de reportagem, edição, produção, serviço, design, ilustração, infografia, fotografia, quadrinhos, humor. Como grande parte deles teve a autoria de mais de um profissional, chega-se ao impressionante resultado de 2.259 árvores distribuídas até hoje. É uma floresta. Se forem contados todos os finalistas, entre ganhadores e destaques, o número fica assombroso: 6.984 troféus, somando árvores, arvorezinhas e placas.

Exagero, certo? Errado. Dá, na divisão por 30, a média de uns 31 prêmios principais por ano. Razoável. Ou melhor, essa quantidade decorre do objetivo que levou à criação do Prêmio Abril. A história é antiga. Mas parece que aconteceu ontem. Meninas e rapazes do Curso Abril, vocês não têm noção. Era o tempo das máquinas de escrever Remington, Olympia e Olivetti, laudas em que se redigia em 37 toques sem hifenização, datilógrafas sonolentas que na calada da noite passavam a limpo os textos canetados e sujos antes de mandá-los para a composição, tesoura, estilete, cola, benzina, letraset, telex, teletipo da Ansa, máquinas de telefoto da UPI, filmes coloridos enviados para São Paulo na mão de passageiro, telefones com extensão e disco que volta e meia pifavam (Veja, em um dos primeiros números, deu a foto de um desses telefones na capa, com esta chamada: “Sou surdo, mudo e nem ligo”), uma única e controladíssima linha direta na maioria das revistas, rádio de ondas curtas com antena entortada e bombril espetado na ponta para ouvir as últimas notícias do exterior ou jogos de futebol, sala escura de prisma com projetor de slides para se escolher a capa, contatos fotográficos em preto-e-branco, lápis e pincéis para retoques nas ampliações, redações sufocantes sem ar condicionado (em domingos de verão, no Dedoc e em Placar, os funcionários mais calorentos trabalhavam descalços e sem camisa, até que se providenciou a compra de enormes ventiladores e eles passaram a se vestir com a desejável compostura), latinhas mornas de cerveja escondidas na gaveta durante o fechamento em madrugadas sem fim, café de garrafa térmica, cinzeiros fedorentos por todo lado – e, se tudo isso não bastasse, ditadura militar e censura prévia.

Pois a vida era mais ou menos assim quando, em 1975, então diretor editorial das revistas femininas, Thomaz Souto Corrêa propôs a Roberto Civita que a Abril instituísse um, digamos, certame interno anual para reconhecer a excelência de matérias, fotos e artes gráficas que os concursos jornalísticos em geral – ele pensava sobretudo no Prêmio Esso, lançado em 1955 – jamais levavam em conta. Reportagens de moda e decoração, retratos de estúdio, aberturas e seleção tipográfica, entre diversas categorias, estavam na sua cabeça. Ao mesmo tempo, conforme revelaria décadas mais tarde, Thomaz acreditava que tal tipo de premiação seria um incentivo para que as revistas femininas passassem a produzir melhores páginas de continuação e boas aberturas em página ímpar, áreas em que, a seu ver, teriam que se aprimorar. Doutor Roberto gostou da idéia e os dois foram pedir a bênção do fundador e presidente da empresa, Victor Civita.

“Seu” Victor seria nos quinze anos seguintes um entusiasta do Prêmio Abril. Estiloso em seus colarinhos pontudos e gravatas vermelhas combinando com o lenço do bolsinho do paletó, era um dos primeiros a chegar à festa, acompanhado de sua mulher, Sylvana Alcorso Civita. Pontual, não escondia uma ponta de inquietação com os costumeiros retardatários. No encerramento, voltava ao sorriso quase permanente e fazia questão de entregar pessoalmente aos eleitos o prêmio de viagem-estágio (mais viagem do que estágio, na verdade). “Faça uma boa revista, que o resto vem e todo mundo fica sabendo”, gostava de dizer aos diretores de redação. Em 1990, quando se comemoravam duas datas redondas – o 40o aniversário da Editora Abril e o 15o do Prêmio Abril –, ele assinou pela última vez a apresentação do catálogo tradicionalmente distribuído à saída da cerimônia por recepcionistas risonhas e perfumadas. “Sem falsa modéstia, são marcos definitivos do próprio jornalismo brasileiro”, escreveu em relação à dupla celebração, quatro meses antes de morrer, aos 83 anos. “É essa busca incessante da excelência que transforma nossas revistas em líderes absolutas do mercado. E os profissionais que nela trabalham – ou trabalharam – na elite do jornalismo brasileiro.”

Naquele dia de 1975, ao ser procurado por doutor Roberto e Thomaz, “seu” Victor como de costume decidiu na hora: ok, vamos em frente, mas o prêmio tem que valer para tudo e para todos. Ou seja, tanto para textos de serviço e roteiros de histórias em quadrinhos como para reportagens de política e economia. Em outras palavras, Claudia – a menina dos olhos de Thomaz e de dona Silvana –, a àquela altura agonizante Realidade, a jovem Pop e a recém-lançada Homem, primeira encarnação de Playboy, por exemplo, poderiam concorrer no mesmo páreo com Exame e Veja. Neste caso, muitos achavam que seria covardia. Veja tinha mais de 100 pessoas na redação, entre as quais alguns dos mais competentes e conhecidos jornalistas do país, e uma estrutura que incluía uma série de aparelhadas editorias, incontáveis subeditorias, sucursais nas principais capitais brasileiras e correspondentes exclusivos nos quatro cantos do mundo.

Nasceram daí duas coisas que, a cada Prêmio Abril, são motivo de nove entre dez reclamações nos corredores, antes da festa, e no coquetel (ou jantar, em anos de vacas gordas) logo após a premiação. A primeira é que há categorias demais. A segunda é que, em várias delas, não dá para competir com a Vejona. Começando pelo fim. Nem é preciso olhar as estatísticas para comprovar que Veja, como observaria o Conselheiro Acácio, ganha mesmo o maior número de prêmios. Basta lembrar qualquer uma das 29 cerimônias anteriores e o número de vezes que foram chamados ao palco editores, repórteres, fotógrafos e designers da revista. Veja acumula o dobro de finalistas e 2,5 vezes mais prêmios do que Playboy, a segunda colocada. Mas – surpresa! – um levantamento da Diretoria Secretaria Editorial mostra que, proporcionalmente ao número de edições publicadas a partir de 1975, a campeã do Prêmio Abril é outra revista.

Eis uma informação que faria o jornalista Mário Escobar de Andrade, seu diretor até morrer, em 1991, tocar a buzina estridente com a qual comemorava, na antiga redação do 10o andar do edifício Panambi, as boas notícias que recebia (o fechamento do contrato com uma estrela ou a chegada de um novo anunciante): Playboy, somada a Homem, recebeu uma árvore a cada 3,6 edições e, nesse critério, é a primeira colocada dos trinta anos do Prêmio Abril. Em segundo lugar, está Claudia (uma árvore a cada 5,5 edições). Veja é a terceira (uma árvore a cada 7,2 edições). O mesmo cálculo em relação aos trabalhos finalistas apontará a seguinte classificação: Playboy, Claudia, Nova, Quatro Rodas e Veja.

Quanto às categorias, elas de fato parecem intermináveis. Como se disse acima, porém, a média não chega a ser um disparate. Para uma editora que publica dezenas de revistas – o número exato ninguém sabe ao certo, embora só no painel do saguão do NEA estejam enfileirados os logotipos de cinqüenta, o que evidentemente não inclui especiais e filhotes em fase experimental –, bem que poderia ser outorgada uma árvore folhada a ouro para quem conseguisse propor um enxugamento sem cometer graves injustiças. No I Prêmio Abril, eram 34 categorias – logo engordadas para 38. Nos anos 90, diminuíram para vinte. Houve tantas queixas que aumentaram de novo. Atualmente são 33. (No último Oscar, distribuíram 24 estatuetas.)

Com tamanho leque de opções, 277 jurados premiaram, nestes trinta anos, 105 revistas diferentes, incluindo seus sites. Sim, 105. Figuram aí títulos que ficaram na memória dos leitores e dos profissionais que neles trabalharam: A Turma do Pererê, Esportes & Náutica, Grid, Moto, Noticiário da Moda, O Carreteiro... Uma conseqüência inevitável: também ainda não se encontrou a mágica de montar uma cerimônia de premiação mais curta. O consolo é que ela já foi mais longa. E aqui entre nós, que ninguém nos ouça e com todo o respeito pelos que se empenharam para deixá-la atrativa e lhe dar mais ritmo, em tempos idos a festa foi mesmo meio chatinha. Thomaz gosta de recordar que, na primeira edição, realizada no Palácio das Convenções do Anhembi, havia tamanha preocupação com a solenidade que se montou uma mesa para acomodar as autoridades presentes. E dá-lhe discurso atrás de discurso. Na segunda entrega, uma trilha sonora acompanhava o anúncio das premiações. Se o ganhador era de Veja, tocava Pompa e Circunstância. Se era de Placar, ouvia-se o hino do Corinthians... Terminou em risos.

Em anos seguintes, numa tentativa de melhorar o espetáculo, vários artistas foram convidados para atuar como apresentadores, de Chico Anysio a Jô Soares, do casal Antônio Fagundes e Mara Carvalho à dupla José Wilker e Denise Fraga. Às vezes dava certo, às vezes não dava.

Assim como os apresentadores, os jurados, em sua maioria, eram de fora. A relação é tão rica quanto a dos premiados. Havia escritores (Fernando Sabino, Otto Lara Resende), empresários (Antônio Ermírio de Morais, Olavo Setúbal), políticos (José Serra, Marta Suplicy), médicos (Ivo Pitanguy, Adib Jatene) e uma infinidade de jornalistas, cujos nomes iam de A (Alice Maria) a Z (Zuenir Ventura). Os júris acertaram com freqüência. E, claro, cometeram erros. Finalmente, chegou-se ao Prêmio Abril que temos hoje, com mestres-de-cerimônia e jurados internos. Estamos em casa. Nossos colegas sabem melhor do que ninguém o que é fazer revistas e têm um critério mais próximo do consenso – até onde pode haver consenso numa escolha como essa – na hora de apontar finalistas e ganhadores. Mas o melhor de tudo, nesse novo caminho, é que todos estão bem à mão para ouvir nossos palpites e nossas broncas. Mesmo porque no ano que vem tem mais.

* Colaborou: Cecília Barcelos

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